Olga Montanari, a primeira mulher eleita vereadora em São Caetano do Sul
Indicações e reinvindicações de uma mulher pública em prol da educação e do lazer na cidade recém-emancipada
Nascida na cidade de São Paulo, no bairro da Lapa, em 1 de dezembro de 1920, Olga Montanari de Mello mudou-se para São Caetano em janeiro de 1941, aos 20 anos de idade, quando o município ainda figurava como 2º Distrito de Paz de Santo André. Fez parte do movimento autonomista sendo uma das 5 mulheres da lista de líderes autonomistas homenageados na placa de bronze em formato de livro aberto que se encontra ainda hoje na Praça Cardeal Arcoverde, que traz 95 nomes de personalidades que lutaram pela emancipação da cidade, sendo 90 homens e 5 mulheres.
Após a conquista da autonomia da cidade, que então se tornava São Caetano do Sul, em 1949 foram realizadas as primeiras eleições municipais, que elegeram o primeiro prefeito, Ângelo Raphael Pellegrino, e 21 vereadores para a Câmara Municipal. Olga Montanari de Mello foi eleita pela UDN, a primeira mulher eleita vereadora na cidade.
Já durante sua campanha ela ressaltou sua atuação como professora da Escola Paroquial de São Caetano, que viria a ser uma das principais bandeiras levantadas pela vereadora, a educação pública. Consta no acervo do Arquivo Público Municipal, conservados e disponibilizados para a pesquisa, pelo menos 3 processos de indicação da nobre vereadora Olga Montanari, todos relacionados a sua luta pela educação pública em São Caetano do Sul.
As indicações de vereadores são documentos que foram aprovados pela Câmara Municipal endereçados ao Executivo, pleiteando melhorias e propondo políticas públicas do legislativo. Há pelo menos 37 processos de indicação de propostas no acervo permanente do Arquivo Público Municipal, datados de 1949 a 1967.
No processo administrativo n.º 3842 de 1950, Olga Montanari indica ao prefeito Pellegrino, através de um ofício enviado no dia 6 de novembro de 1950, a desapropriação de uma área de terra para a construção de um “Grupo Escolar” (nome dado ao novo modelo escolar instalado ainda na primeira república) no então bairro Vila Paula, essa reivindicação resultou no Decreto Municipal nº 48 de 10 de abril de 1951, que declara de utilidade pública o referido imóvel para a construção do Grupo Escolar Vila Paula.

Ofício ao Prefeito Ângelo Raphael Pellegrino encaminhando a indicação da vereadora Olga Montanari de Mello em 6 de novembro de 1950. (Documento integra o Processo Administrativo n.º 3842/1950, do acervo permanente do APM)
Outra indicação em prol da educação pública da vereadora foi encontrado no processo administrativo n.º 2.437 de 1951, através de um ofício enviado no dia 22 de junho daquele ano, Olga e demais vereadores pleiteiam junto ao prefeito municipal a declaração de utilidade pública para a construção de um Grupo Escolar. Dois anos depois, em 1953, foi aprovada a Lei Municipal n.º 326, de 1º de abril de 1953, que destinava o terreno, após desapropriação, a construção do Grupo Escolar Vila “Gérti” (grafia da época).
Fora do âmbito da educação pública, mas voltado ao lazer dos munícipes e visitantes da cidade, no processo administrativo nº 1810 de 1951, Olga Montanari indica à prefeitura aceitar a doação de determinadas áreas de terreno, situadas no então bairro Vila Santo Alberto, do Dr. Paschoal Walter Byron Giuliano. Esse processo levou mais tempo para ser concluído e em 17 de janeiro de 1961 a Câmara Municipal de São Caetano do Sul aprovou a Lei Municipal nº 996, que autorizada a Prefeitura Municipal a adquirir, por doação, diversas áreas de terrenos (leitos de ruas e áreas livres) para “ajardinamento”, ou seja, a construção de jardins públicos voltados ao lazer da população do bairro Vila Santo Alberto, hoje bairro Oswaldo Cruz.
Sendo apenas algumas das atuações da nobre vereadora, podemos notar uma forte ligação com os problemas reais que a cidade carecia pós emancipação, na busca pelo bem público em prol daqueles que mais precisavam. Olga Montanari de Mello exerceu o mandato de vereadora de São Caetano do Sul por 3 mandatos, sempre calcada pelos princípios e necessidades da população, como ressaltava desde a sua primeira campanha em 1949, em um dos textos impressos dessa campanha a líder autonomista dizia:
“Por força da lei assiste à mulher o direito do exercício do voto, podendo influir na escolha de candidatos aos cargos do governo. Esta força e este direito trazem no entanto o dever de fazer representar o seu pensamento por um vereador do próprio sexo: por uma mulher. Somente uma mulher pode compreender o sofrimento de uma fila de carne, ou de um cartão de óleo. Não importa que essa representante da mulher de São Caetano do Sul, pertença a este ou àquele partido, o que importa é que seja capaz de defender com decisão e firmeza os interesses da parte mais sacrificada da população: a mulher de São Caetano do Sul.”.
Fontes:
HERAS, Paulo. Olga Montanari: exemplo de atuação da mulher na vida pública de São Caetano. Raízes, São Caetano do Sul, ano VI (11): 11-5.
GARCIA, Carla Cristina. As outras vozes: memórias femininas em São Caetano do Sul. São Paulo: Editora Hucitec-São Caetano do Sul: Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul, 1998.
Processo Administrativo n.º 3842 de 1950.
Processo Administrativo n.º 2437 de 1951.
Processo Administrativo n.º 1810 de 1951.